Posted by Deyris Almeida
Ninguém mais lê isso aqui, eu sei.
Fica sendo uma auto-confissão. Pronto.
Da primeira vez que amei, fui covarde. Era ainda uma menina, dessas que guardam papéis de bala na agenda, colecionam frases de efeito, batem a porta do quarto. Era uma tarde de março, com outra qualquer: a não ser pelo céu recheado de tons de roxo (o que depois vim a descobrir ser um bom presságio). Do gosto do primeiro amor, a gente nunca esquece. O meu demorou três anos pra se fazer degustar. Descobrimos o mundo ao mesmo tempo. Em todos os sentidos, de todos os jeitos: os primeiros acordes, as primeiras crises, o primeiro tapa, a primeira infração, o primeiro beijo, o primeito tudo ou nada, o primiro sim e o primeiro não.. Naquela época andávamos lado a lado, como quem pisa em folhas secas, mãos dadas, sentindo cada passo. Pena que nos esquecemos de guardar o caminho de volta...
Da segunda vez que amei, foi um choque. Outra tarde arroxeada de setembro. Eu, um paradoxo ambulante. Metade inconseqüência, metade objetivação. A cabeça fervilhava, e eu questionava minhas verdades até então inquestionáveis. Áries, ascendente em Leão. Cantarolávamos Los Hermanos, fechávamos os olhos, e quase tudo era possível. Não tínhamos ainda noção da nossa força, nem do risco que corríamos. Você era do mundo, e eu... eu mal conehcia a vida, pra falar a verdade. Sempre botei a maior banca, mas a real mesmo é que era só uma tenta tiva de acompanhar seu ritmo. Logo mais, me descobri Touro, ascendente em Câncer. Preciso falar mais alguma coisa?
Da terceira vez que amei, foi o acaso. Um acaso de abril. Ainda é meio real, como uma daquelas ilusões de ótica que você sabe que não existem, mas confudem sua percepção da realidade. E era tudo tão intenso - tanto, que doía, apertava o peito, angustiava os sentidos. Havia mais de você em mim do que o contrário. Eu sei. Mas havia a música, e eu só consegui decifrá-la longe. Do seu lado, era impossível. Você, que capturava toda a atenção e abafava o que eram os acordes dissonantes que compunham nossos dias, marcando a tensão de cada gesto, a latência de cada ferida, a imensidão de cada noite. A essa altura voltei a ser menina, como se antes de você, não soubesse ainda o significado das palavras. Aprendi, então, a ler. E o mundo perdeu o encanto.



